Artigo - Os russos chegaram

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Artigo - Os russos chegaram

Mensagem  Cyber em Sex Jan 18, 2008 10:40 am

Olá amigos;
Notei que temos aqui no fórum muitos membros que gostam de literatura russa. Eu particularmente sou um grande admirador da literatura russa. Então revirando meu micro encontrei um artigo que saiu na revista Epoca há algum tempo e que achei interessante. Gostaria de compartilhar com vocês e também de saber a opinião de vocês em relação a ele.
Os russos chegaram [1]

Traduções diretas do russo invadem as livrarias e conquistam os leitores brasileiros, com vendagens recordes e boa qualidade
Luís Antônio Giron

Quando eles começaram a estudar russo, a família tremeu e os amigos passaram a vê-los como excêntricos. Afinal, aprender uma língua difícil e considerada exótica — e, por muito tempo, subversiva — não parecia ser o melhor negócio do mundo. O leitor, porém, está colhendo os frutos de décadas de esforço de um bando de apaixonados. Muitos deles se tornaram tradutores e são os principais responsáveis pelo renascimento da literatura russa no Brasil. Graças à persistência de três gerações de tradutores, pela primeira vez o consumidor tem acesso a versões em português feitas diretamente do russo para obras clássicas de ficcionistas do século XIX e de autores menos conhecidos do século XX. A literatura russa saiu do fundo dos catálogos para a linha de frente do mercado editorial brasileiro. Vende aos milhares, especialmente os nomes consagrados de Fiodor Dostoiévski (1821-1881), Leon Tolstói (1828-1910) e Anton Tchékhov (1860-1904), cujas obras começam a aparecer em versões diretas.
O grande caso é Dostoiévski. Em um ano, tornou-se o autor mais lido da editora 34. O romance Crime e Castigo, na tradução direta do russo de Paulo Bezerra, vendeu 14.300 exemplares e chegou à quinta edição. Um autor brasileiro mediano raramente esgota uma edição de 3 mil exemplares. Os cinco títulos de Dostoiévski da editora, somados, vendem dez vezes mais. Dostoiévski é o autor russo mais popular do Brasil. Mas Tolstói tem também seu público. O Diabo e Outras Histórias, em tradução de Beatriz Morabito, já chegou a três edições, com vendagem de 8 mil cópias, segundo a editora Cosac & Naify, que tem lançado livros do gênero. As obras de Tchékhov alcançam números similares aos de Tolstói, e poucos livros dele permanecem nas prateleiras. O resultado é que os tradutores do russo, antes tidos como esquisitos, estão sendo mais procurados do que nunca.
"Passei décadas com livros na gaveta, correndo em vão atrás de editoras", comenta o paraibano Paulo Bezerra, de 62 anos. "Hoje recuso trabalho. Literatura russa é moda."
Bem antes de ser moda, em 1963, Bezerra foi mandado à União Soviética para se formar em política. "Ledo engano do Partidão", diz. "Voltei literato oito anos depois." De lá para cá, traduziu 45 livros do russo, um recorde brasileiro, e projeta publicar as principais obras de Dostoiévski até 2010. Seu próximo título é Os Possessos. Depois, vai desbravar Humilhados e Ofendidos. Antes do trabalho de Bezerra, o único romance da maturidade do autor traduzido diretamente para o português era Irmãos Karamázovi, em versão de um certo Boris Salomonov, realizada no fim dos anos 40 e lançada pela extinta editora Vecchi. Pela mesma casa, tentou lançar a tradução da novela O Chefe da Estação, de Púchkin. Para tornar o produto vendável, o editor alterou o título. O volume chegou às livrarias com a foto de uma insinuante mulher na capa e o título Dúnia, a Pecadora da Estepe.
Nascido há 85 anos na União Soviética e emigrado para o Brasil aos 8, o professor Boris Schnaiderman é o maior divulgador da cultura russa no Brasil, com 30 títulos no currículo — sem contar as revisões, pois altera as traduções periodicamente. Conta que no Brasil, até pouco tempo atrás, as traduções dos autores russos aportavam em português "filtradas" de outros idiomas. "Tradução indireta é algo estranho", analisa. "O francês nivela todos os escritores. Tolstói, Dostoiévski e Turguêniev parecem o mesmo autor. O francês é um idioma rígido, enquanto o russo soa solto, parecido com o português." Explica que, pela tradução do francês ou inglês, o humor sarcástico dos moscovitas se perde e não se notam nuances de linguagem entre personagens de diferentes extratos sociais.
Mesmo recheadas de erros, as traduções indiretas serviram para despertar a carreira dos tradutores atuais, como a dos paulistanos Aurora Bernardini, devotada às obras de Isaac Babel (1894-1941), e Homero Freitas de Andrade, divulgador de Mikhail Bulgákov (1891-1940), e a do carioca Rubens Figueiredo. Aos 46 anos, ele estréia com uma coletânea de contos longos de Tchékhov, O Assassinato e Outras Histórias, a ser publicada pela Cosac & Naify em março de 2003. "Entrei para o curso de russo porque era o jeito mais fácil de passar na faculdade", brinca. Escreveu novelas e contos, traduziu mais de 50 livros do inglês e só recentemente "regressou à Rússia sem sair de casa", por prazer. "Sempre me perguntavam o que eu iria fazer com o russo. Aí está a resposta."
Os tradutores concluem que o leitor não aceita mais textos indiretos. "Se alguém pensa que leu Dostoiévski antes de 2001 no Brasil, engana-se", jura Bezerra. Para ele, só agora os russos começaram a mostrar o rosto.
Duas versões de O Idiota

Tradução direta do russo revela maior clareza

"— Eu sem Aglaia... preciso vê-la, sem falta! Eu... eu, brevemente vou morrer dormindo; eu acho que na noite de hoje eu vou morrer dormindo. Ah, se Aglaia soubesse, soubesse de tudo... isto é, forçosamente de tudo. Porque neste caso é preciso saber de tudo, isso é o primeiro!"
(Tradução direta do russo feita por Paulo Bezerra para a editora 34 em 2002)
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"— Sem Aglaia eu... é absolutamente preciso que a veja! Eu... eu morrerei em breve, dormindo, pensei que estava morrendo esta noite durante meu sono. Oh! Se Aglaia soubesse, se ela soubesse tudo... quero dizer absolutamente tudo! Porque o essencial, aqui, é saber tudo!"
(Tradução indireta, do inglês, feita por Natália Nunes e Oscar Mendes para a Companhia Aguilar Editora em 1963)

[1] Revista Epoca - www.epoca.com.br

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É realmente ótimo

Mensagem  Vivatchka em Dom Fev 10, 2008 4:31 am

Li o artigo na ocasião, realmente vale a pena. Sugiro, aliás, que, quando formos debater uma obra russa, sempre possamos ter acesso a edições com tradução direta, na medida do possível. Beijos a todos.
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