A República das Coxinhas - uma fábula de Araraquara

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A República das Coxinhas - uma fábula de Araraquara

Mensagem  Vivatchka em Dom Fev 17, 2008 3:16 am

Uma folha em branco, assim pautada no meu caderninho de notas, me dá vontade de contar uma história.
Quem me contou tudo – e jura que é tudo verdade – foi o esperto cachorro, que cortou o dedo de prosa que a história suscitava, quando a conversa, no galinheiro, quase virou uma rebelião da frangaria.
Era uma vez um pequeno sítio em Bueno de Andrada, um reino da imaginação do cachorro – e o cachorro ganhava muitas coxinhas e linguiças contando histórias como esta.
Pertinho do trilho do trem, havia uma pimenta bem vermelha chamada Dedo-de-Moça. Ela vivia irritada porque o trem era barulhento e a deixava nervosa; além disso, a pimenta tinha muita inveja porque o trem ia para onde queria, ao contrário dela, que ficava plantada em Bueno de Andrada.
Dedo-de-Moça era a rainha de Bueno de Andrada, porque, além de temperar as coxinhas do Freitas e a lingüiça do Zé, ornamentava o trilho do trem. Apesar de antipática, era bem bonita mesmo.
Chamava-se Dedo-de-Moça porque, quando uma moça passava cheinha de babados dentro do trem e via a pimenta, ficava corada com tanta beleza, e esticando o dedinho gordo, avermelhado pela excitação de ver coisa tão linda, dizia: “Mamãe, veja que planta airosa!”.
Assim, Dedo-de-Moça reinava em Bueno de Andrada, reino da imaginação do cachorro.
No reino, além do cachorro, súdito que levava recados e fazia festa a quem quer que fosse, abanando a cauda, especialmente para as mocinhas que passavam de trem, havia ainda os gatos, aristocratas que, malgrado sua posição social, cuidavam da limpeza pública; a Cenoura, a ministra mais importante do reino, embora não fizesse mais do que ficar plantada; o Coelho, que gostava de ficar parado, imitando a Cenoura e contrariando sua natureza saltitante (por isso, era a vergonha da sua mãe); o porco, que era o agitador de Bueno de Andrade e sempre temia virar lingüiça; e os passarinhos, que costumavam abrilhantar as reuniões mais importantes da nobreza com seu canto magnífico, mas não se envolviam nunca em questiúnculas.
O cachorro era amigo dos frangos e das galinhas. Um dia, brigou com o porco por causa de Dedo-de-Moça, que o suíno considerava uma má rainha. “Ela reina muito mal”, dizia, “arrelia-se por qualquer razão e até briga com a Rosa”.
A Rosa era flor discreta, que não se insinuava na trilha do trem, como a pimenta, mas era plebéia e, por isso, ninguém que passasse no trem a veria. Ela ficava plantadinha num canto, que iluminava com sua presença. Ao lado dela, ninguém se aborrecia.
Dedo-de-Moça odiava a Rosa e a invejava porque muitos a consideravam mais bela do que a rainha. “Ela vive se insinuando para qualquer idiota, como esse porco, exalando esse perfume enjoado que tem, como se o porco merecesse qualquer distinção”, reclamava a rainha.
Ora, como rainha, Dedo-de-Moça prezava muito as conveniências e a aristocracia. Apreciava, por exemplo, os modos dos gatos que, ao contrário do porco, não soltavam pum ao defecar e, além disso, cobriam seu cocozinho com terra. Além disso, os gatos a reverenciavam conforme sua realeza merecia, ronronando para a rainha em delicadas mesuras, que faziam ao esfregar-se preciosamente nas folhinas da soberana.
Assim, o reino era dividido. Dedo-de-Moça não se importava em temperar as coxinhas e linguiças do reino porque sempre brotava novamente, e com mais força, e precisamente é que essas coxinhas e linguiças eram a causa de toda a discórdia, já que, apesar de os frangos virarem coxinhas, nem davam por isso; já o porco, que virava lingüiça, achava aquilo muito injusto. Já a soberana não pretendia comprometer o comércio local, que lhe arrecadava bons impostos.
Foi por causa dessa briga que houve divisão no reino no dia da derrocada da rainha. Ela tinha como apoiadores o Cachorro, os gatos e a Cenoura; já os oposicionistas eram o Porco e o Coelho. Os frangos simpatizavam com esses, que poderiam apoiá-los no caso das coxinhas, mas não ousavam dar apoio público aos oposicionistas. Os passarinhos não tinham partido nessa história.
O cachorro e o porco, cercados dos outros súditos de Dedo-de-Moça, debatiam a forma como a rainha governava.
“Ela jamais impediu que os meus parentes virassem lingüiça”, disse o porco agitador, incitando uma revolta.
O Cachorro retrucou: que mal havia em que alguns súditos se sacrificassem pelo bem da economia do reino?
O porco ficou agastado. “Ora, você é mesmo um subalterno”, retrucou ao cachorro, “um cordeirinho aos pés da rainha”.
E embora aquela divisão política fosse coisa de muitos anos em Bueno de Andrada, o cachorro apelou para outra rivalidade, ainda maior e muito, muito mais antiga, ao confrontar o porco. “Ora, é sempre melhor ser cordeiro ou frango do que ser porco”.
O comentário incomodou o porco, que notou que ele revelava todo o seu conservadorismo – e, porque não – preconceito aristocrático, naquela observação infeliz. Quando ia responder, o cachorro ainda chamou-o “gordo” e “sujo”.
A Cenoura, que era a ministra mais importante do reino mas, como se viu, ainda não tinha feito nada nesta história, achou que, pelo bem comum, deveria acalmar os ânimos. “Por favor, senhores”, disse, entre gritos de manifestantes de ambas as partes, mas o tumulto estava feito.
O coelho, que, como eu disse, não era lá de muita ação, mas também era partidário da Rosa, que representava os ideais dos que não queriam ser jantados na praça, resolveu tomar uma atitude e nhoc! – comeu a primeira-ministra, a Cenoura. E declarou: “Agora sou eu o ministro!”.
“Mas de que vale”, disse o Porco, “depor o ministério se a rainha ainda é Dedo-de-Moça?, perguntou.
A essa hora, a pimenta estava ainda mais vermelha do que de costume, de tanto medo e ódio. Subitamente, o Porco a pisou e quebrou sua raiz, e os frangos a arrastaram para o trilho do trem. Abaixo a monarquia, diziam, enquanto o trem passava espalhando as sementes da Dedo-de-Moça. Que ousadia!
Declarou, então, o Porco: “Está declarada a República”, ao que se seguiu a eleição para presidente. É claro que a Rosa foi a eleita. O Coelho ficou como primeiro-ministro, já que havia se adiantado à sua nomeação. No entanto, nada mais fazia, a não ser ficar paradão, como a primeira-ministra Cenoura que ele próprio depôs. Na cerimônia de posse, os passarinhos cantaram lindos hinos, que eles mesmos compuseram, para celebrar a República. Para eles, aquele era um evento como qualquer outro; da mesma maneira haviam cantado no nascimento de Dedo-de-Moça.
Quanto ao Porco, que deu início a toda a rebelião, fez com que a Rosa declarasse que ele não poderia virar lingüiça, mas como o reino não poderia deixar de arrecadar impostos, os frangos continuaram virando coxinhas.
Os gatos agraciavam a nova presidente da República com as mesmas gracinhas que encantavam Dedo-de-Moça. E o cachorro, que me contou esta história que desenhou na sua imaginação, resolveu sair de fininho e morar no Reino do Selmi Dei, porque gostava de lingüiça e em Bueno de Andrada não havia mais lingüiça que comer.
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