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Mensagem  kelner em Seg Fev 25, 2008 9:40 pm

Uma voz calou-se
Um pó fino e aposentado maquia as vestes hirtas.
Um olhar diverso se esvai.
Deixa discos, livros e finos sentidos.
Atravessou os montes sagrados
Que o Homem com o seu incenso e seus sacrifícios inventou.

Jaz inanimado, nulo
No terreno abissal, desértico, da solidão,
E de tanta vida estática.
Aqueles que amam ainda,
Pavimentam a senda triste da cerimônia
Com lamentos, lágrimas e o peito em treva.

As crianças que não compreendem aquilo
Esperam a volta e imitam os grandes.
Ainda estranham os gritos ácidos,
Os ganidos, as escuras vestes.
Amanhã. Daqui a pouco: brincarão,
Mas com menos gritos
E uns pudores infantis que derretem fácil
Até o mármore e as flores saírem-lhes da memória.

Na cozinha,
Na sala,
Na cama,
Constará um hiato:
No jornal que não mais sobra,
Na mesa, no banco do bar, frios.

O cão conhece um sentimento
De quem não lhe chama agora,
E se falasse,
Não diria nada.
Porque lhe dói aquilo
Que não mais está.



Ao amigo Aquiles, morto em 2007.


Última edição por kelner em Seg Maio 25, 2009 7:02 am, editado 1 vez(es)

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Re: sem título

Mensagem  Gustavo em Qua Fev 27, 2008 5:31 am

Cara, que linda declaração de afeto!

***

Seus versos livres e seu monólogo corrente te ajudaram muito, não travaram a leitura e não te limitaram. Acho que você soube equilibrar muito bem as linguagens conotativa e denotativa, sem abusar nem carecer de uma ou outra.

Um recurso (que, no geral, eu não sei se é bom ou mau; e neste poema foi bem empregado) usado por você na versificação foi utilizar as pausas naturais da leitura para terminar o verso. Um exemplo:

"As crianças que não compreendem aquilo
Esperam a volta e imitam os grandes."

Se lermos essa frase de uma vez só, podemos perceber que existe uma mínima pausa no "aquilo", continuando ininterruta até o fim. É o contrário de:

"As crianças que
não compreendem aquilo esperam
a volta e imitam
os grandes."

A diferença é que é mais fácil e seguro fazer como você fez; não há erros e o texto soa fluente. Na outra escolha, busca-se maior complexidade na apresentação do poema, acentuando cada palavra ou pensamento; é mais ritmado e mais difícil, pois tem que se acertar o ponto exato de pausa e continuidade.


O poema emociona e prende. A pontuação tem falhas, mas é normal - apenas não se esqueça de consertar. A palavra "hirta" é um mistério! pouquíssimas pessoas sabem seu significado - e é muito ruim ter que imaginá-lo; mas não tire, se ela te agrada.

Uma coisa que eu adoro e acho que você fez inconscientemente é "deixa discos, livros e finos sentidos". Tônica nos "ii" seguida sempre de "os". Fica bonita a sonoridade.

***

Hmm... chega né?!
Para uma primeira postagem, você se saiu muito bem! ahahaha

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Re: sem título

Mensagem  kelner em Qua Fev 27, 2008 6:32 pm

Eu gosto muito deste poema, que me assombrou numa madrugada. Engraçado as coisas que você pode perceber no poema que para mim fora puramente intuitivo. O verso "deixa discos, livros e finos sentidos" quase fora tirado, mas decidi que ficasse.

A palavra "hirta", fora empregada para dar maior ênfase ao inanimado, ao rígido; à semelhaça da idéia idiossincrática que tenho da morte. Engraçado como há palavras que são caras para mim, de forma que seria um imenso sacrifícioamputá-las dum poema. A casos em que procuro um verso, só para por um palavra. Um verso s mercê duma palavra.

Devo dizer que adorei seu elogio, e suas observações, embora reconheça que isso me atrapalhe bastante, por me influenciar. Quando escrevo, tento me agradar ao máximo, mas não deixo de pensar em agradar aqueles poderão ler (um pouco de vaidade).

Tenho muita coisa que gostaria de mostrar mas que estão sendo burilados.

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Mensagem  Vivatchka em Ter Mar 04, 2008 1:18 am

Eu também adorei. É sutilmente triste, mas não doído, e faz da vida o caminho do fim das coisas.
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Re: sem título

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