O e-mail do funcionário de repartição

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O e-mail do funcionário de repartição

Mensagem  Vivatchka em Dom Mar 02, 2008 3:44 am

Chegou, passou a mão na guarda do paletó para, discretamente, sacudir a caspa, colocou-o pendurado na cadeira, tossiu e sentou-se.
Todo dia era assim. Seguia uma rotina dura, em que qualquer imprevisto era considerado uma ameaça à sua tranqüilidade.
No serviço, não tinha muito o que mudar. Eram sempre as mesmas coisas para fazer. Mas as chamadas inovações tecnológicas irritavam-no um pouco, porque às vezes tinha que aprender coisas novas para continuar trabalhando.
É claro que, na repartição, a tecnologia chegava tarde, quando não havia mais jeito de protelar. Usou máquina de escrever até 93. Mas quando instalaram internet e uma rede interna de mensagens nos computadores, o funcionário irritou-se. O ritmo do escritório mudou. Por outro lado, havia a vantagem de poder trabalhar sentado na cadeira o dia inteiro: quaisquer comunicações na repartição passaram a ser feitas por e-mail.
O funcionário precisou adaptar-se às novas tecnologias. Não era nada difícil, mas um incômodo... mas, graças a Deus, dali a poucos dias uma nova rotina se estabeleceria.
Um mês depois, o funcionário mal era notado na repartição. Chegava, passava a mão na guarda do paletó para, discretamente, sacudir a caspa, colocava-o pendurado na cadeira, tossia e sentava-se, trabalhava sem falar com ninguém e ia embora. É claro que cumprimentava os outros, era um homem cortês. Mas suprimira de seu cotidiano a convivência do cafezinho, um ou outro comentário que fazia à força do companheirismo à pessoa com quem tinha que tratar, e até perdeu grandes oportunidades de falar mal do diretor, o que outrora fazia com grande distinção.
O mundo do escritório tornou-se distante. Lera em qualquer lugar que numa tal nova ordem as pessoas trabalhariam em casa. Ele bem que poderia fazer isso, de certa forma, se os documentos fossem arquivados na rede.
O único contato que tinha com os colegas era pelos e-mails que mandava e recebia. Havia correspondências eletrônicas que iam para todos os funcionários. Eram de dois tipos. 1) profissionais: “Comunico os senhores colegas que no dia 27 teremos reunião” etc. 2) correntes: “Agradeço Santo Expedito” etc.
Ele percebia que os colegas também trocavam correspondência mais íntima, informal, para combinar o chopp, convidar para uma festa. Mas mensagens assim nunca haviam chegado até ele.
Um dia acordou cheio de catarro na garganta. Um café quente e bem doce bem acalmaria o mal-estar, mas certamente o cigarro de depois causaria incômodo tão grande quanto ficar sem fumar.
De mau-humor, levantou-se, banhou-se, preparou o café, tomou-o e fumou, enquanto abria a porta da rua para ir à repartição.
Chegou, passou a mão na guarda do paletó para, discretamente, sacudir a caspa, colocou-o pendurado na cadeira, tossiu e sentou-se.
Como de costume, abriu sua caixa de entrada de e-mails para verificar compromissos. Era um funcionário muito organizado. Uma reunião para as três, e mais um daqueles e-mails de corrente, que se manda para todo cristo que tiver um endereço eletrônico no escritório: “Se você está em dificuldades, seje ela financeira, doença ou qualquer” etc.
Mal leu, deletou. “Seje”, pensou. “Era só o que me faltava”.
A frase mal escrita dirigida a muitas pessoas, as comunicações técnicas e o isolamento a que havia sido relegado o consternou.
Clicou em “nova mensagem” e escreveu: “Fui para o diabo”!. Enviar para: companhia@... Enviou. Transtornado, nem levou seu paletó. Fazia um desgraçado calor.
Tomou o cuidado de tirar o telefone da tomada. Deitou e quase dormiu. Na verdade, estava muito agitado.
Depois de um breve cochilo, acordou, sobressaltado. Já eram duas horas! Precisava almoçar e comprar um computador, providenciar internet e outras bobagens. Para isso, precisaria passar pelo banco, tirar um talão de cheques e solicitar algum crédito. O fato foi que, às oito da noite, já havia feito quase tudo a que se propusera.
Sentia um nó na garganta, que rolava fazendo cócegas. Bebia muita água. Ainda era cedo, podia haver alguém fazendo hora extra na repartição. Não podia, ainda, concluir o procedimento que era o motivo de ter ido ao diabo durante o expediente.


Saiu e alugou uns filmes de violência. Assistia a alguns pedaços, rebobinava a fita, até que se decidiu por algum. Isso consumiu longo tempo porque, para cada trecho de filme a que assistia, ele, depois de rebobinar a fita, colocava o filme na caixa correspondente, e esta, em ordem alfabética entre outras fitas. Assistiu inteirinho a um deles, de cujo nome mal se lembraria no dia seguinte.
Quando chegou a uma da manhã, lembrou-se de que àquela hora já não haveria nenhum infeliz lá no escritório, e de que era o momento de botar em prática o seu plano. Escrever um e-mail que todos receberiam ao mesmo tempo, às oito da manhã, quando abria a repartição. Lembrou-se de que às vezes o diretor chegava um pouco mais cedo. Logo ele. “Foda-se”. Escreveu:
Bom dia, colegas.
Escrevo porque estou certo de que, em todos estes anos de labuta contínua e conjunta com os senhores, jamais houve de sua parte o merecido respeito para com a minha pessoa.
Sou homem sério, nunca fui rude com qualquer colega, nunca extrapolei com brincadeiras de mau gosto e nunca vos atormentei com meus problemas pessoais.
Por outro lado, sempre fui prestativo com aqueles entre os senhores que um dia houveram precisado dos préstimos profissionais da minha pessoa.
Por isso, venho por meio deste enviar aos senhores e, as senhoritas que me perdoem mas a vocês também, uma mensagem importante para a nossa convivência.
Entro e saio da nossa querida repartição há 26 anos e nunca tive uma palavra de carinho para comigo. Nenhum sinal de companheirismo.
Sei que sou um homem feio e, por causa dos muitos pêlos que trago no rosto e nos braços (até nas mãos) tenho horrendo aspecto. Sei que, por isso, as senhoritas não gostam de me cumprimentar. E eu sei que tenho caspa. Por isso não me casei, não por causa das minhas manias.
A verdade é que eu também vos odeio a todos. E se querem saber, vão todos os senhores pra puta que os pariu.
Este é o meu “bom dia” para os senhores, já que um cumprimento formal e respeitoso não é suficiente para lhes ganhar a estima. Seu bando de animais de teta.
Com meu protesto de etc etc etc,
...
No dia seguinte, chegou um pouco atrasado. Excitado com sua atitude, que muito certamente lhe valeria o emprego, não havia conseguido dormir cedo, o que só fez quase às seis e meia da manhã, e perdeu o horário.
Logo ao entrar, o porteiro mal o olhou. Mas a mocinha que fica na mesa logo adiante o cumprimentou meio rindo e soltou risinhos às suas costas, enquanto o apontava para uma amiga.
Entrando na administração, todos fingiram que não o haviam visto, exceto um funcionário mais brincalhão que o alcançou, batendo-lhe nas costas e dizendo:
— Ê, colega! Ninguém sabia que o senhor era um piadista!
Uma outra, com pena, levou-lhe um café.
Aí ficou perplexo porque, em toda a sua vida, ninguém lhe havia levado um café senão por mera formalidade. Dessa vez, essa mulher, a dona Terezinha, levou, porque quis. Tremendo, tentou pegar a xícara, em que esbarrou, derrubando o líquido. Confuso, pediu desculpas e seguiu para sua salinha. Havia percebido que ela ficara com pena dele.
Estava atordoado. Mas o grande golpe daquele dia ele teve quando viu o paletó que estava ali desde o dia anterior. Sentiu que sua disposição estava extinta. Nunca, em 26 anos, ao chegar, deixou de tirar o paletó e passar a mão na guarda deste para, discretamente, sacudir a caspa, e só então colocá-lo pendurado na cadeira, tossir e sentar-se.
Ainda em pé, ligou o computador e abriu a caixa de entrada. Cerca de 30 pessoas já haviam respondido à sua mensagem, e mais correspondências estavam chegando. Enfim, alguém lhe dava atenção. Eram piadas, conselhos, a maioria impropérios. Mas ele não soube de tudo o que causara, porque não abriu toda a correspondência.
Foi direto à mensagem do diretor. “Está despedido. Passe no RH”.
Em 18 dias conseguiu outro emprego, muito parecido, com salário inferior, ao qual se adaptou bem. Afinal, era quieto e muito organizado.
O paletó, jogou-o ao lixo; comprou outro, que usou com mais parcimônia.
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Re: O e-mail do funcionário de repartição

Mensagem  kelner em Ter Mar 04, 2008 1:54 pm

Um conto, que bem poderia ser apenas um capítulo de um
romance. Adorei a sua escrita crua, despida de lirismo. O que não quer dizer
que seja menos literatura, menos arte. Já havia lido algumas coisas no seu
blog, mas este aqui eu gostei muito. e acabo de ler pela segunda vez. Fiquei de
postar algo antes, elogiando. Quando não acho motivos para tal, prefiro o silêncio.

Aquele e-mail... Quase me engasguei de tanto rir. "A verdade é
que eu também vos odeio a todos. E se querem saber, vão todos os senhores pra
puta que os pariu.
Este é o meu “bom dia” para os senhores, já que um cumprimento formal e
respeitoso não é suficiente para lhes ganhar a estima. Seu bando de animais de
teta.
Com meu protesto de etc etc etc
,"
Estou lendo um romance do Saramago "O Homem Duplicado", onde o
personagem principal tem uma relação com os colegas de trabalho um tanto
parecida com este seu. No mais, adorei sua escrita despojada, livre, que não
deve ser confundida com desleixe. Sua arte descreve o prosaico, apropriar-se do
prosaico para torná-lo arte. Você já
deve ter nota que sempre escreve com muito humor. Aquele conto da mulher que
fica desempregada e sofre com a visita do pai, também é divertida; também é rápida;
também é cotidiana e grotesca: grotesco a estória, não o conto.


Juro por Deus que
ainda agora, tendo acabado de ler pela segunda vez “o e-mail do funcionário de
repartição”, sinto vontade de lê-lo novamente, para soltar mais algumas
gargalhadas com o e-mail do lobisomem.

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Obrigada

Mensagem  Vivatchka em Ter Mar 04, 2008 3:07 pm

Kelner, eu gosto mesmo do humor, mas do humor mórbido, do ridículo das coisas difíceis. Que bom que você se diverte com meus textos; às vezes os considero pesados. Continue logando o meu site, é um prazer enorme para mim.
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Re: O e-mail do funcionário de repartição

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