José Régio - Cântico negro

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José Régio - Cântico negro

Mensagem  kelner em Ter Mar 04, 2008 5:23 am

Ouvi este poema pela primeira vez na voz de uma mulher. Gostei tanto que enquanto corria a noite, decorava-o. Este é uma daquelas poemas afetivos, que me prende tanto pela mensagem quanto pelo lirismo. Espero que dê o que falar.

Como não sei se a formatação ficará boa ou mesmo se a forma em que o poema fora disposto no site é a certa, deixo o link da página de onde copiei o texto.
http://www.releituras.com/jregio_menu.asp












Cântico negro


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


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José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

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Re: José Régio - Cântico negro

Mensagem  Gustavo em Ter Mar 04, 2008 7:19 am

Sabe kelner, nunca gostei de manifestações literárias que contestam, revolucionárias, um modo de agir, de pensar. No fim da juventude, esses mesmos caras que lutaram contra deuseomundo pela liberdade serão os conservadores mais convictos. Não gosto de pessoas (escritores, no caso) que se vangloriam de ser do undergound e menosprezam, com uma vaidade deprimente, o mainstream. Resumindo, odeio política.

Passei um pouco do ponto pra dizer que eu acho mais justo apresentar uma atitude, um pensamento, novos por si só, sem compará-los a outro modo de pensar. É mais leal falar "eu construí essa estrada, venha por aqui, se te agrada" que "venha pela minha estrada porque a outra é antiga, feia, suja..."

Exemplificando, dois poemas do Manuel Bandeira: o "Poética" contesta diretamente e intolerante a antiga escola de poesia da época. Por outro lado, "Os Sapos" também agulha os parnasianos, mas com requinte, com finesse. Eu prefiro o segundo, mas, até aqui, é tudo questão de gosto.


Procurei por outros poemas dele. Encontrei, no site do Instituto Camões, pedaços da sua biografia. Estou lendo. Ainda não gostei dos seus textos, também não desgostei. Ele rima bem. Mas não rolou uma química. rs

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Re: José Régio - Cântico negro

Mensagem  kelner em Ter Mar 04, 2008 2:41 pm


Uma questão de gosto.
Deveras.


Gustavo. Concordo com você em quase tudo.
Poesia planfetária para mim não serve, mas creio que seria mais correto dizer
que prefiro poesia não idealista, à idealista.



Costumo lembra-me, para não me trair, que não
sou admirador de poetas e sim de poesia. Por exemplo, muitas poesias de
Drummond não me agradam. Claro que alguns escritores me são tão agradáveis, que
fica difícil sustentar esta minha tese. Quando você cita o undergound
"recalcado" e seu futuro conservador (odeio os intolerantes),
lembro-me de George Orwell em seu "A Revolução Dos Bichos".


Realmente eu nuca entendi muito os porquês das
briguinhas na área da arte. Como tem gente arrogante neste meio! Interessante é que
muitos destes brigões são geniais. Acredito também que muitos poetas “ensinam”
sem querer; ditam “verdades” sem querer. Escrever é cavar muito fundo em nós -
falo do escrever como conduto. E gente, é raça de muita matéria. Na poesia isso fica muito evidente, porque os
poetas, digo os bons (olha eu me metendo em verdades!), quando não falam
(escrevem) de si, falam da forma como enxergam o mundo. Logo, falam de si. Quando um poeta se mete a dizer o que é certo;
o que deve ser; o que não deve; é lamentável. O que fica é a sua arte.


Última edição por kelner em Seg Jun 01, 2009 6:20 pm, editado 2 vez(es)

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outro poema, sem título

Mensagem  Gustavo em Sex Mar 07, 2008 5:55 pm

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...


fonte: www.astormentas.com/regio.htm

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