Tobias, o coveiro (conto)

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Tobias, o coveiro (conto)

Mensagem  guilherme carvalhal em Dom Jan 27, 2008 11:03 am

Chegando em casa após outro dia de serviço, Tobias pensa apenas em deitar-se e descansar os ossos. Cavar sepulturas, eis o seu ofício. Garantir aos
falecidos filhos de Deus seu descanso eterno, e impedir problemas ambientais com o apodrecimento de corpos ao ar livre.


Sai todos os dias de manhã, após tomar café e comer o pão quentinho que a esposa compra antes dele acordar. Monta na bicicleta, e pedalada após
pedalada vai ao cemitério. Quando não há sepultura a cavar, circula por entre as tumbas observando-as, cada uma diferente da outra, principalmente a dos ricos. Imagens de Nossa Senhora e de Jesus a enfeitá-las, alguns vasos de flores. Gostava muito de ler os epitáfios, alguns muito bonitos, achava ele.


Ó, mar de gente por sob a terra. Ossadas descarnadas devoradas por bactérias que ninguém sente muita falta. E devoram o corpo de dentro para fora, após jazer sete palmos de fundura, muito bem medidos, fazia questão Tobias. Podridão, fedor, abre uma sepultura dessas pra sentir o fartum nauseabundo subir-lhe na cara, o bafio quente dos mortos a penetrar-lhe pelas narinas. Ossos, sangues, músculos. Necrochorume. De vez em quando uma viúva desmaiava no enterro. Pedia pra ser enterrada junta. Tinham que segurá-la para não pular na cova quando Tobias jogava a terra por cima do caixão. Ele tentava entender, limpava o suor dos olhos, mas ó dona, já é o terceiro que enterro hoje, e tem mais dois, tem como agilizar meu lado? Pior eram as carpideiras, bicho mais falso! Basta terminar o enterro e se escapa ela pra ir pra casa, enxugam-se as lágrimas. Ora, essa. E ainda pagam prum troço desses ir chorar no cemitério. Pobre do defunto, que descanse em paz.

E, religioso e respeitador que sempre fora, benzia-se antes de botar o pé dentro do cemitério. Com os mortos há de se ter muito cuidado. Sempre rezava por aqueles que enterrava, a não ser quando era bandido morto pela polícia ou por outro bandido. Que Deus tenha pena, mas pode um homem ruim desses ser enterrado do lado dum homem bom que nem o Dr. Malaquias? Nunca.

Às vezes a filha mais velha ia visitá-lo. Já era casada, com um mecânico, pessoa que Tobias não gostava muito, pois tirou-lhe a filha prenhe de casa, mas respeitava por ser pai de seu neto. A filha mais nova estudava, e o único filho homem dirigia um caminhão de frango prum monte de lugar do país, e certa vez foi assaltado na Bahia.

E, certa vez quando ocorria um enterro o padre disse: “Do pó vieste, ao pó retornas”. Palavra mais bonita, queria eu saber falar bem assim. E ninguém mais como Tobias para entender isso, que acostumara-se a ver o desespero das pessoas ao depararem-se com a perda de alguém querido.Restava apenas a frase: descanse em paz.
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guilherme carvalhal

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