O GENERAL EM SUA ILHA (conto)

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O GENERAL EM SUA ILHA (conto)

Mensagem  Silvadrian em Sab Fev 02, 2008 8:26 am

Em círculo. Era assim aquele pedaço de terra no mar pleno, como eram todos os avanços que o General fazia. O uniforme, embora puído, o de gala, a única roupa do alto oficial nos últimos treze anos. Não chegara como um hábil descobridor, que escolhe para onde vai e alcança, manejando o astrolábio e ordenando a caravela, mas abraçado nas partes boiantes de uma fragata menos ligeira que os petardos inimigos, driblando fragmentos de corpos loucos pela voz caudilhesca de sua goela segundos antes à explosão. Salvou-se também a longa arma branca que até então era apenas parte de sua indumentária; jamais tivera noção do sangue.

O miolo da ilha, um mistério. O General, porém, conhecia cada grão do perímetro insular. A espinha dorsal guardava, saudosa e dolorida, as lembranças da total ereção à frente dos campos de batalha; hoje, curvava-se para a esquerda, obra das infindáveis voltas em sentido horário pelas areias em declive da orla ¾ busca do inimigo. E quando o General dava trégua aos próprios pés em terra reta, não adentrava a mata, talvez uns poucos metros, nove doze quinze, para a retirada dos sustentos da carne. Virara uma larva de coco, uma mosquinha da banana; os frutos do mar jamais lhe apeteceram e as aves que pousavam naquele ponto perdido, não as importunava.

O General vasculhava sempre o horizonte e os céus. A boçalidade soberana dava-lhe a certeza de que para algo mudar o seu destino novamente teria de romper aquela bolha de fora para dentro, assim como faz o espermatozóide no óvulo, assim como fizera o raio das nuvens inimigas na fragata. Perdurava assim, enigmática, a polpa da ilha.

E em uma de suas andanças com a companheira em punho, o metal rastreador de homens da armada alheia, o General avistou, lá onde céu e água confundem-se, fumaça negra que se acinzentava no espargir. Observou, e a memória exigiu uma imagem já esquecida por querer: o naufrágio. Mas querendo não esquecemos, e os fragmentos de corpos, a água em fogo e a terra firme distante dos olhos rodeavam novamente o General.

Quando voltou da lembrança, o céu de claro passara a cinza, como se infinita fosse a fumaça vinda do horizonte, e logo a ilha viu-se coberta por um nevoeiro estranho àqueles treze anos de habitação humana. O General ergueu a espada e tirou um assovio de sua lâmina; cortou a nuvem que o encobria.

¾ Está próxima a tua hora!

Então, depois de um vento soprado de todas as direções, o nevoeiro dissipou-se e, com os joelhos doídos pela imobilidade atenta, o General viu o buraco azul que se formava no cinza, uma mancha de um azul que só lá sobre a ilha existia e que, como a boca do oficial, aumentava e aumentava naquele momento; e aumentou até ser apenas sol sobre a mata e sobre o quepe laureado.

Ouviu longe, às suas costas, um som e não era comum esse som, não era o das aves, do irromper de peixes, do arrastar das tartarugas, da maré, do vento nas bananeiras ou coqueiros. Voltou-se, a atenção dos olhos imitou a dos ouvidos. Um vulto indecifrável caminhava na direção oposta. O General seguiu-o, mas algo lhe causou estranhamento. Conhecia as margens da ilha como se fora ele próprio o seu arquiteto. Agora, porém, não era somente a posição das conchas ou o declive por vezes mais acentuado, por vezes menos, que estava diferente. Eram as grandes pedras ¾ impossíveis de serem removidas pelos braços do mar ¾ e a vegetação que lhe pareciam modificadas. Ele parou por um instante, sua coluna também sentia uma força ímpar: vergava para o outro lado. Virou-se para trás, e tudo estava como antes, incólume. Virou-se novamente. Recomeçou a caça no sentido anti-horário da ilha. O vulto estava ainda mais longe e o General pôs-se a correr com a espada à frente, gritando alto lá ao mesmo tempo em que embasbacava-se com a nova paisagem. Num gesto de indisciplina ele baixou o braço condutor da lâmina, tropeçando caindo ferindo. Não queria perder o que procurara nos treze últimos anos; mesmo com a perna em sangue continuou o acossamento, pela primeira vez injuriando a companheira, deixando-a cravada na areia, o suco vermelho a escorrer pelo gume.

A distância entre perseguidor e perseguido diminuiu. O General corria, encaixava sem folga os pés nas pegadas do inimigo, deixando mais forte o rastro. E o vulto desviou a trajetória em círculo; entrou na mata. Parado, o General olhou a nova rota que teria de seguir. Livrou-se do uniforme de gala e continuou o encalço. Depois, quando ambos já estavam no miolo da ilha, houve um sussurro: “acabou-se a guerra”.

Silvadrian

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Re: O GENERAL EM SUA ILHA (conto)

Mensagem  Vivatchka em Dom Fev 10, 2008 4:45 am

Adorei o estilo. Só que não entendi a história dos 3/4. Parabéns
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Re: O GENERAL EM SUA ILHA (conto)

Mensagem  Silvadrian em Dom Fev 24, 2008 3:10 pm

Obrigado, Vivatchka. Isso dos 3/4 creio que tenha a ver com a configuração do PC, não entendo muito bem disso, mas, se não me engano, o travessão pode virar a fração 3/4, o que não existe em meu texto. Então, onde leste 3/4, deverias ter lido o sinal gráfico "travessão".

Vivatchka escreveu:Adorei o estilo. Só que não entendi a história dos 3/4. Parabéns

Silvadrian

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